A dor e o que vem depois dela
É dito que cada indivíduo nessa Terra caminha com um nó em seu coração, hrdaya granthi (हृदयग्रन्थि). Esse nó às vezes está disponível para a percepção diante de alguma situação específica, sentimos o peito apertar, sentimos agonia, uma profunda tristeza, um impulso destrutivo contínuo, e por vezes ele se revela sem nenhuma situação específica, se manifesta daquela mesma forma sem sabermos de onde está surgindo o que sentimos, por vezes apenas como um grande vazio. Esse nó é uma mistura entre dois fios que não são feitos do mesmo tecido, é a mistura entre o que eu sou de fato, atman (आत्मन्), e tudo que eu acho que sou, anatma (अनात्म), que compreende esse corpo, essa mente, as emoções e, mesmo, a minha história. E existe um estado de desfazimento desse nó, na

tradição védica o indivíduo nesse estado é conhecido como liberto, Jivanmukti, uma pessoa que vivencia o estado no qual essa mistura se desfaz e que tem clara a diferença entre as duas coisas, tendo conquistado aquilo através do discernimento, viveka (विवेक).
Esse é o conhecimento que se busca pelo estudo de Vedanta, mas como então aceitar que esse conhecimento não gera uma experiência nova, como aceitar que é nessa mesma experiência que está a felicidade? Como conceber que a felicidade não está em um outro lugar, em uma outra experiência, em um além eterno no qual tudo é perfeito? E me pego pensando, se eu continuo sentindo tudo do mesmo jeito, dor, alegria, medo, onde está a liberdade do liberto?
A tradição traz a resposta por meio do exemplo do ator de teatro, que sente tudo dentro do personagem, chora e se desespera de verdade, mas ao fim da cena sabe que aquilo não passa de um papel. O ator não é tocado pelas emoções do personagem, se o for supomos todos que há algo funcionando mal no ator. Assim vive o jivanmukti, sentindo a emoção inteira, sem identificar-se com ela.
É o que dizem os sábios, então, ainda assim, insisto comigo mesmo, sentindo que na prática sofro menos hoje do que sofria antes de iniciar nessa jornada. Observo uma turva distinção que vejo e se desvanece diante do meu limitado entendimento: o que diminui não é a dor no momento em que ela acontece, é o que costuma vir depois dela. Não é a dor do golpe, é o sangue que corre. Não é o atestar do fim, é o questionamento acerca do que pode estar teminando. A dor em si é rápida. O que a prolonga é a história que edifico sobre ela, a sensação de injustiça, a necessidade de me defender.
Este é um ciclo comum para mim, a reatividade ligada à sensação de injustiça: alguém me acusa de algo e surge a imediata necessidade de me defender, custe o que custar, mesmo sabendo que essa reação machucará a gente que eu amo. Ao examinar essa sensação de "preciso me defender de uma ameaça", percebo que ela não nasce só da dor do momento. Ela vem de um cálculo que não escolho fazer conscientemente, somo frustrações antigas, situações parecidas do passado, coisas que já recebi das pessoas específicas que me acusam ou que entendo que as mesmas pessoas me devem. A reação parece imediata, mas carrega uma história inteira dentro dela.

Os ensinamentos do Acharya, esse que ensina pela palavra e pela prática, são taxativos: antes do conhecimento, vivemos acreditando que só ficaremos bem se as coisas acontecerem do jeito que queremos. Depois a ordem se inverte, a pessoa entende que já é completa, e vive o mundo a partir dessa completude, sem depender do resultado para se sentir inteira. Não é deixar de agir ou deixar de sentir. É agir a partir de outro lugar, sem carregar a história antiga dentro de um fardo sobre as costas. Ter que abrir toda a bagagem a cada nova paisagem de uma viagem certamente nos fará perder o que viemos aproveitar, nos irritará e possivelmente esvaziará o sentido de estarmos fazendo as coisas.
Certo, fiquei pensando, mas onde então entra aquilo que sustenta a mente de cada um de nós, onde entra o que está sendo pedido por Ishvara em cada situação, o dharma? Se tudo acontece dentro da ordem de Ishvara, os karmas se desdobrando como devem, fiquei sem entender como uma ação pode estar fora desse Dharma universal.
O estudo de Vedanta me ajuda a ver que esse canal entre o desejo e o Dharma só fica limpo quando o conhecimento está estabelecido, que a ignorância é o que embaça esse canal e nos faz agir por apego, pela incapacidade de apreciar a felicidade perene, de examinar e desatar esse nó dentro do coração. Confesso que a pergunta ainda está viva em mim, não cheguei ao fundo dela, é algo a levar adiante no meu estudo. Tem aulas que nos deixam sem respostas e sem soluções, como essa, na qual o que fiquei foi com um jeito novo para tentar olhar para minha própria reatividade: separar a dor que sinto de verdade da história que eu conto sobre ela. Não sei ainda até onde essa separação vai, mas já sei que é por aí que eu preciso seguir olhando, para ver mais paisagem e menos bagagem.
Porto Velho, 14/09/2026



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