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Não lembrei, reconheci. (parte 2)

15 de out.
5 min de leitura
Rāma, a encarnação do dharma
Rāma, a encarnação do dharma

       I.          Como posso reconhecer o dharma? Mais uma vez me debruço sobre esse tema. Se seguir o dharma é tão importante, devo me esmerar na arte de reconhecê-lo, especialmente quando começo a observar certos aspectos da vida saindo dos eixos. Nesses momentos duas perguntas tendem a surgir para mim: “Será que deixei de fazer algo que deveria ter feito ou estar fazendo? Será que tem algo que fiz que está demandando revisão?”, e então ressurge essa questão de identificar o dharma e seus aspectos.

 

Acabei chegando à visão de que há dois grupos de situações que consigo diferenciar: aquele quando há algo que posso classificar como certo e errado, como mais ou menos correto, e aquele quando há um caminho a ser tomado, mas aquilo não implica necessariamente dano ou uma subversão de valores. Por exemplo, quando estava para prestar concurso público, o curso preparatório tinha um valor alto, apesar do meu interesse de começar a estudar surgiu uma hesitação ao mesmo tempo que algo por dentro me puxava para a direção de realizar aquele preparatório e começar a estudar. Vinha o medo, e se eu estiver desperdiçando esse dinheiro? E se eu não conseguir me comprometer? Minha tendência é crer que filtro esses impulsos e desejos pela razão, pelos prós e contras, mas em nenhum momento eu realmente coloquei tudo que estava fazendo em perspectiva. Não cheguei a pensar quantas horas dedicaria ao estudo, nem a quantificar como aquilo impactaria minha vida familiar, tampouco parei para realmente imaginar como seria minha vida em caso de aprovação. Fiz uma breve apreciação do que estava sentindo sobre aquilo, dos custos e da minha fantasia no caso de aprovação e resolvi assumir o compromisso do preparatório. Tudo que se desdobrou com relação a essa decisão foi fruto desta força sobrepujante e das bençãos que permitiram planejar, estudar e me adaptar aos obstáculos. Então de verdade, o que aconteceu foi que naquele momento não reconheci nenhum dano ou malefício que pudesse vir daquela decisão e me permiti simplesmente seguir aquele impulso. Não consigo dizer com certeza total de onde vem essa força. Talvez seja Ishvara entregando os frutos das ações e dando seguimento aos karmas.

 

Esse olhar retrospectivo acaba exaltando conquistas e a intuição, mas também aprendi que nem toda força interna vem desse lugar, mesmo em decisões sem certo ou errado, também podem ser ativados e prevalecer padrões inconscientes, máscaras que puxam para repetir roteiros antigos, carências, fantasias de como a realidade deveria ser. A aula não me deu uma fórmula para separar essas duas origens dessa força, não sei se existe uma fórmula, algo que ainda quero perguntar diretamente ao Acharya Jonas.

 

 

      II.          A capacidade de seguir o dharma, o caminho espiritual, está conectada com aproximar os desejos daquelas ações que produzem estabilidade para a mente. Começo a entender que esse caminho não pede que eu sufoque minhas necessidades humanas em nome do desejo de Ishvara, ele pede que eu me sensibilize o bastante para reconhecer o que é harmonioso, e que o meu próprio desejo se aproxime desse dharma. Todas as necessidades humanas cabem nos desejos de Ishvara. Não preciso me privar de estar com quem gosto de estar, só talvez reconhecer que um tempo a sós também é necessário. Não

Vighnarāja, o Senhor do obstáculos
Vighnarāja, o Senhor do obstáculos

preciso me privar de comer o que gosto, só abrir mão dos excessos que me levam por um caminho pouco benéfico. É nesse renunciar aos excessos danosos que mora o desapego verdadeiro, não na privação. É um reconhecimento que tem o poder de nos direcionar para além da armadilha da dualidade, dos gostos e aversões e nos manter firmes em um local de estabilidade e harmonia, que enorme desafio do dia-a-dia, ó Bhagavan.

Essa mesma lógica de reconhecimento aparece no perdão. Só consigo perdoar alguém quando vejo que, com a mesma história que essa pessoa teve, eu teria feito as mesmas escolhas. Devemos examinar bem isso. Não é sobre absolver todos das consequências de suas ações, é mostrar compaixão com a humanidade de cada um mesmo quando o que nos cabe é apresentar as consequências (acho que em boa parte, o segredo de uma paternidade ou maternidade saudável). Olhar para o outro como um ser humano inteiro, com uma trajetória, é o que torna possível não rejeitar a humanidade dele. É aí que entra também a conexão com as próprias sombras: eu preciso reconhecer no outro o que também existe em mim. Se pinto o outro como monstro, eu estou celebrando a minha própria ignorância.


    III.          “Em todo lugar em que estiver Krishna, em todo lugar em que estiver Pārtha (Arjuna), aí haverá riqueza, vitória, prosperidade e inflexível justiça. Essa é minha visão.”, assim falou Sañjaya, aquele que tem o dom de ver à distância, que narrou a Gīta à Dhṛtarāṣṭra, no último verso do último capítulo. Chego então na pergunta, apresentada a mim, que fecha essa reflexão hoje: Por que, se onde há conhecimento e dharma há vitória, tantos buscadores sinceros parecem sofrer mais que pessoas comuns? Considero essa uma comparação estatística equivocada. A verdade é que o buscador está examinando o que a pessoa comum evita olhar, vivendo à flor da pele o que o automático esconde. Todos querem nascer de novo, mas ninguém quer morrer. Muitas vezes não queremos abandonar certas fantasias. Neste processo caminhamos e por vezes chegamos diante de sombras que são grandes demais para adentrarmos, olhamos e vemos tudo muito escuro, sentimos medo, sentimos medo de entrar e nos perdermos, perdermos algo lá dentro, perdermos o que achamos que somos. “Quem sou eu sem minha filha?”, “pra quê olhar para isso se tudo está bem agora?”, “como posso ser conivente com me expor a uma dor para encontrar a felicidade, se tudo parece em ordem?”, eu me pergunto diante desse colosso sombrio diante de mim, apequenado, de novo criança, impotente, querendo ignorar que aquela fronteira continuará existindo e que o próximo caminho em algum momento também me levará ali, porém mais cansado e menos apto a reagir. Coragem.


Voltando ao nosso verso, mais do que isso que foi dito, a vitória do verso não é ausência de dor. É reconhecer que não há prosperidade fora da ordem, que quem alcança esse conhecimento venceu o sofrimento de depositar sobre nomes e formas a responsabilidade pela própria felicidade. Foi assim que a Gita chegou até mim através do Vedanta, pelo estudo com o professor Jonas Masetti: não como fórmula pronta, mas como convite para reconhecer o que eu já sou, e eu peço desse tão poderoso Shiva, de Ishvara, do Senhor Krishna e desse Vighnarāja, coragem e amor próprio para continuar.

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