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Instrumento, não autor

5 de set.
4 min de leitura

Na tradição védica o poder superior costuma receber nomes que são na verdade adjetivos, e ele vai receber muitos nomes durante o processo de estudo e obtenção do conhecimento. Um desses nome é Ishvara/ईश्वर​ (pronunciasse Iishuara), de forma breve significa “aquele que governa, que é o controlador das coisas. Faz parte desse caminho buscar entender de que jeito Ishvara se relaciona, entra, nas ações que executamos cotidianamente, compreender que essa conexão não está estabelecida à distância, mas como origem e destino do que fazemos. Esta é uma etapa aonde o entendimento intelectual precisa encontrar as ações cotidianas e a firmeza da mente para que floresça a compreensão, é algo que sigo tentando trazer cada vez mais no dia-a-dia. Já ao fim da Bhagavad Gita, Krishna diz “seja aquele que mantém a mente em mim” (मन्मना भव​), isso significa trazer Ishvara como beneficiário de qualquer ação que eu vá realizar, e ver que essa ação passa pelo instrumento que sou, mente e corpo, mas nasce de um desejo que nem escolhi, dentro de uma história que não fui eu quem escreveu. Em última análise, sem risco de cair na inatividade ou irresponsabilidade quando sob o escrutínio do conhecimento, não existe alguém fazendo ações e outro alguém recebendo seus frutos. Somente Ishvara está presente.

Shri Krishna ensina Arjuna em Kurukshetra
Shri Krishna ensina Arjuna em Kurukshetra

Como é de costume desse processo de conhecimento, pensar sobre esse tema fez aflorar situações que devem receber mais luz, me fez olhar para um padrão meu que eu já conhecia, mas nunca havia nomeado. Muitas vezes eu busquei me posicionar, ou disse coisas no ímpeto de meramente exibir determinado conhecimento, de me destacar, de atribuir à presença desse conhecimento um certo valor, e tudo bem ser satisfeito ou celebrar as coisas que possuímos ou que recebemos, mas quando isso serve a mim mesmo como uma forma de me sentir melhor que o outro ou diminuir alguém, de me tirar do lugar do simples e feliz, do comum humano, estamos diante de um problema, um obstáculo ao crescimento. Por vezes também falei “verdades” sem considerar os sentimentos de quem estava ouvindo, o valor pela verdade é muito importante de estar presente em quem almeja esse conhecimento e ele deve ser exercitado ininterruptamente, a verdade precisa ser dita, mas isso não significa que ela precise ser dita de qualquer jeito, a qualquer hora. Quando percebo essas coisas, vejo que a ação deixou de ser sobre a situação e passou a ser sobre mim, sobre precisar parecer certo, especial, seguro, sobre querer me aliviar de algum peso que me oprime, não o dissipando, mas o relegando à outra pessoa. É exatamente o oposto do que as aulas de Vedanta ensinam sobre agir como instrumento.

Então talvez você fique se perguntando, como um sábio amigo me perguntou/provocou, "por que existem pessoas que servem ao mundo e pessoas que causam destruição se todas as ações acontecem através de nós como instrumentos?". A resposta é complexa e pode ser destrinchada por horas, mas passa pela existência de diferentes níveis de ignorância e de karma se desdobrando na vida de cada um, com desejos que nascem para permitir o desdobramento desses karmas. Veja, não quero agredir o livre-arbítrio, existe um grau de livre-arbítrio, mas ele é condicionado por esses fatores, o que faz com que nem sempre o valor pelo dharma esteja disponível para a apreciação de quem age. No fim, o que determina que instrumento cada um será são as bênçãos de Ishvara, mas, dentro do intervalo de livre-arbítrio que resta, cabe a cada um se esforçar para tomar atitudes que caminhem em direção ao bem comum, exercitando a mente para ser um instrumento mais benéfico, para si e para os outros.


Ao fim do derradeiro verso de conhecimento da Bhagavad Gita está o “ma shuchah”/मा शुचः, "não sofra", que também ganhou outro peso para mim. Não é uma anestesia para o sofrimento, é não ter medo de se libertar do ego, deste que está fazendo as vezes do Eu, e não aceitar o sofrimento como algo normal da vida, porque cada um de nós é fonte de paz, não só receptor passivo do que o mundo manda. Viver o conhecimento tem uma palavra de força: Coragem. Coragem para aceitar ver que o mundo não é o que parece e que tudo bem se até agora eu estive confortavelmente infeliz, aceitando a condição de estar sentado sem remos em posição fetal em um barco à deriva no oceano de emoções e acontecimentos que é a vida. Agora eu tenho coragem e mesmo que eu tenha medo do porvir eu me debruço sobre as bordas e remo com as mãos, confiando que mesmo que eu pareça estar parado diante da fúria ou bonança do oceano, ele está me levando a algum lugar e eu estou realizando a minha parte.

Esta aparente discrepância de poderes e realidade entre mim e o mundo se conecta direto com a ideia de abandonar a realidade dos objetos e a autoria das ações, sarvadharman parityajya/सर्वध्रर्मान्परित्यज्य​. Abandonar não é viver isolado, privado de sentir ou se omitindo de agir, é entender que a realidade não pertence aos objetos, eles são só

Tendo ouvido os ensinamentos de Krishna e o tendo como seu charreteiro, Arjuna reconhece seu dever
Tendo ouvido os ensinamentos de Krishna e o tendo como seu charreteiro, Arjuna reconhece seu dever

nomes e formas, e que nem eles nem as ações têm o poder de me dar felicidade. É essa compreensão que abre espaço para fazer qualquer ação com a atitude certa, e é só a partir dela que existe liberdade de verdade para fazer o que quiser, sem ficar refém de julgar cada ação pelo tanto que ela ameaça ou garante minha felicidade. Este ego existe para me proteger da dor, mas também pode bloquear o crescimento se não houver coragem de atravessar o medo que ele cria.

Trocar a necessidade de estar certo, de me destacar, de garantir minha segurança através da ação, pela disponibilidade de simplesmente servir ao que a vida está pedindo, é um exercício diário. Venho estudando com esse propósito, seguindo os ensinamentos do Professor e cada aula tem me ajudado a enxergar com mais clareza onde ainda ajo pelo ego e onde já consigo me fazer instrumento.

Porto Velho, 05 de setembro de 2026

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