Da reação à direção: o que o Vedanta trouxe pra minha vida
Comecei a estudar Vedanta ainda em 2014, quando meu pai e minha madrasta, já alunos havia algum tempo, me convidaram para assistir às aulas. Pensando bem, talvez mais pra frente eu precise fazer uma nova revisão dessa história para corrigir as imprecisões de informações e datas que a contação dela através dos anos consolidou na minha memória. De todo modo, na época eu estava na faculdade, vivia um momento que hoje considero bom na vida, o que me permitiu ter tempo para pensar mais sobre ela.

Não posso negar, venho de uma família espiritualizada e pouco religiosa, uma combinação que não é das mais comuns. O tema do espiritismo e da reencarnação sempre foi assunto na minha casa e na minha vida, especialmente através de conversas com minha mãe, pouco frequentadora dos centros, mas muito ávida pela doutrina kardecista. Nunca ouvi falar da possibilidade de morrer nessa vida e não voltar em uma outra, e desde a primeira infância esse assunto esteve bem presente para mim, quem sabe história para outro texto. Acontece que no ano novo de 2013 para 2014, passado na casa de um amigo com alguns outros amigos em Rio das Ostras, levei comigo o livro “O Retorno do Rishi”, uma versão antiga que estava lá em casa, acho que pertencente originalmente à minha madrasta. O livro apresentava a história de um médico de origem indiana que buscava retornar às origens após sua formação nos Estados Unidos, seguia enveredando pelo contexto da espiritualidade Hindu e os conflitos do médico, formado na medicina científica moderna, e chegava a uma ideia de paz no mundo, alcançada por meio do trabalho sobre si, ressaltando como esse trabalho era importante individualmente e coletivamente. Claro que essa é minha análise retrospectiva do que li, na época só fiquei muito encantado e com desejo de experimentar uma tal de MT, meditação transcendental, que era em boa parte o método de trabalho sobre si trazido no livro.

Acho que foi pensando na vida, acompanhando à distância os caminhos espirituais do meu pai e minha madrasta e puxando livros das estantes de casa que li coisas em um desses livros, que gosto de acreditar ter sido “O Valor dos Valores, do Swami Dayananda Saraswati, que me fizeram ter uma sensação de “ué, mas eu já sei isso”. Não tenho certeza mesmo do ano em que tudo aconteceu e nem de qual era o livro, mas lembro de uma conversa canônica, dessas que você sente que são parte da história principal da sua vida e não se apagam da memória, com meu pai. Estávamos na cozinha da casa dele, que também era minha casa à época, e eu disse algo como, “pai, li naquele livro umas coisas que eu já sei. Eu entendo e concordo com o que ele está falando, é bem óbvio.”, meu pai, “e como você sabe? Aprendeu aonde?”, “eu não sei onde aprendi, é algo que eu já sei, só sei.”. E aí eu não sei como eu pedi ou o que eu disse, mas o que eu queria era mais livros como aquele, que falassem coisas que eu já sabia, talvez porque eu queria saber mais sobre aquilo tudo, mas mais provavelmente porque é muito bom ouvir alguém sábio e importante dizer coisas que a gente concorda e considera que já sabe. Meu pai me explicou que tem coisas que não tem como a gente saber a origem mesmo, é um conhecimento autoevidente, tem coisas que a gente aprendeu e não sabe de onde e tem coisas que a gente sabe onde aprendeu, e me convidou para ir a um encontro com ele na casa de um amigo, pois eles estavam estudando lá um livro que falava sobre as coisas que eu tinha lido, a Bhagavad Gita. O tema de estudo chamava-se Vedanta. O processo, naquele momento, foi demais pra mim. Parei ainda no início de 2015.
Não comecei a tal meditação transcendental, o dinheiro que eu tinha para o curso usei para fazer um curso de escalada e comprar equipamentos, o que, de certa forma, me rendeu meu casamento (mais uma história pra esse blog?). Quanto a Vedanta, levei cinco anos para voltar. Cinco conturbados anos. Foi na pandemia, em 2020, quando aquele amigo que falava sobre a Gita, meu primeiro professor, Eduardo Coulamy, ia abrir uma turma sobre a Bhagavad Gita. Eu havia me mudado do Rio de Janeiro para o interior do Amazonas e as aulas aconteceriam online. Eu já tinha estudado aquele trecho do texto e queria ir mais fundo, então fui buscar o professor Jonas Masetti, que também é professor do Eduardo, e entrei na turma de estudo regular Sharada. De lá pra cá não parei mais.
Comecei Vedanta com 24 anos, universitário, morando em Niterói, hoje sou médico, militar do Exército e perito médico federal, morando em Porto Velho. Além do que está evidente a vistas nuas, o que mais mudou para mim, em mim, comigo? Sempre convivi com uma certa instabilidade emocional, uma sensibilidade que muitas vezes vinha acompanhada de raiva diante das dificuldades e conflitos. Não raro reagia antes de entender o que estava sentindo. O estudo de Vedanta foi, e continua sendo, o que mais me ajudou a mudar essa dinâmica. Não que a raiva tenha desaparecido, ela vive circulando, mas ela deixou de me arrastar. Ganhei uma estabilidade que antes eu não tinha, e consegui direcionar essa energia de um jeito mais harmônico, fincar as bandeiras vermelhas nos limites proibidos ao comportamento. São coisas que se revelaram de formas concretas. Minha capacidade de lidar com crises, de manter foco objetivo em situações de pressão, melhorou muito, oscilações de humor, o desespero que às vezes me tomava, diminuíram bastante nesse período. E no trabalho, onde decisão rápida e clareza são exigidas o tempo todo, seja na perícia ou na rotina militar, o que mais ganhei foi a capacidade de examinar as coisas por ângulos diferentes sem perder o pragmatismo. Ainda tenho uma certa rigidez de valores e de conduta, às vezes só percebo mais tarde que poderia ter sido mais compreensivo ou compassivo em determinadas situações, mas sinto que ganhei sensibilidade e respeito pelo outro de um jeito que antes não tinha.
O estudo de Vedanta permitiu perceber e receber ensinamentos com mais clareza e quem mais me ensina isso hoje, sem intenção nenhuma de ensinar, é minha filha Maya, de quatro anos. Ela tem um jeito de me colocar diante dos meus próprios defeitos no trato com as pessoas, na forma de conduzir situações difíceis e na relação comigo mesmo ao agir nos momentos críticos ou cotidianos. Junto com a Maria, de um aninho, me mostram que o mundo que eu desejo para elas não existe sem que esse mundo exista para mim, são motivo suficiente pra eu querer ser sempre um pouco melhor, pra continuar buscando entender a natureza das coisas.
Esse caminho talvez nem tenha um começo que posso enxergar, passou por meu pai me convidando para uma aula, por um intervalo de anos, e voltou mais forte na pandemia. Hoje sigo estudando Vedanta
, buscando aprofundar o que comecei ainda jovem sem saber onde ia dar. A vida de perito, de militar, de pai de duas meninas pequenas, de marido, não dá trégua, e talvez seja exatamente por isso que esse estudo faça tanto sentido pra mim: ele não me diz para parar o mundo, me desencoraja a parar no mundo e me ensina a mudar o jeito como respondo a esse mundo.
Porto Velho, 27 de agosto de 2026



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